No centenário da morte do pernambucano Joaquim Nabuco - sem dúvidas, um dos "correspondentes" geracionais brasileiros de Eça de Queiroz (de quem foi amigo), e sua Geração (portuguesa) de 1870 -, arrimo-me em Paulo Franchetti, professor de Literatura da Universidade de Campinas, para situar e caracterizar o relacionamento social e intelectual entre os dois representativos escritores de seus países e de suas respectivas literaturas; ao tempo, ainda, mais próximas pela efetiva imposição da matriz lusíada. Pela Geração de 70 mesma, liderada por Eça de Queiroz, Antero de Quental, Oliveira Martins e Guerra Junqueiro. Pelo romantismo de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, ainda vivo no(s) Amor(es) de Perdição e Salvação e em A brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco.
Encontrei-me com o professor paulista nas páginas da edição carioca da Obra Completa de Eça de Queiroz, organizada, prefaciada e anotada pela comum amiga Beatriz Berrini, da Pontifícia Universidade de São Paulo e Unicamp, para cujos volumes escrevemos, respectivamente, os textos de abertura de "Uma Campanha Alegre" (As "Farpas" de Eça) e (ele) de "Correspondência com Brasileiros"; encontro sobre o qual não poderia ter sido mais generoso, nem menos vaidoso de sua condição magisterial. Sobre a "grande familiaridade" do cronista com o criador de Os Maias, confessou - admirado - "já não ser comum nem mesmo entre os estudiosos profissionais, como são os universitários". Estudioso da correspondência eciana e, portanto, conhecedor dos seus limites, só recentemente alargados pela referida Beatriz Berrini e pelo arquiteto e estudioso português Alfredo Campos Matos - organizadores das mais novas edições temáticas -, lamenta Franchetti, "não serem muitos os nomes brasileiros no conjunto das cartas" de Eça. Deve-se isso, entretanto, "mais ao acaso que à real dimensão das relações brasileiras de Eça de Queiroz, que foram sempre, principalmente depois que se instalou em Paris, muitas e variadas. Assim não há nenhuma carta de Eça a Joaquim Nabuco, que ele conheceu e com quem quase com certeza se correspondeu".
Nos cem anos de silêncio do ilustre abolicionista, político e escritor conterrâneo, nossa homenagem - e da Sociedade Eça de Queiroz - passa também e, de maneira gratificante, para os que a fazemos, por sua relação de amizade com o patrono do grêmio, tão atento, sempre, primeiro, ao Recife, através das lembranças da ama-de-leite, Ana Joaquina Leal de Barros; depois, ao Brasil, do amigo fraterno Eduardo Prado.
A amizade com Nabuco é referida por Eça, em carta à mulher, Emília de Castro, datada de Biarritz (França), 20 de fevereiro de 1900. "Encontrei aqui no Hotel o Nabuco, que veio para o Sul, para a convalescença da pequena. É excelente companhia - e com ele converso e passo estas tardes encerradas". No dia 23 - suas cartas familiares eram frequentes - lamentando os ares da praia, confessa: "Além disso oito dias de Biarritz já é uma fartura, apesar da sua beleza, do confortável hotel, e da útil cavaqueira do Nabuco... Gostei muito que saísses da concha de Neuilly e te sacudisses pelo mundo... Se não fosse o encontro com o Nabuco também eu teria feito esta vilegiatura... De resto só há ingleses - que não se conhecem, eles próprios... Mas felizmente tenho o Nabuco". Bela impressão a do pernambucano universalizado. Gilberto Freyre foi outro que nunca se cansou de exaltar-lhe esta riqueza de convívio.
As cartas que Eça de Queiroz lhe terá escrito cabem, agora, ser encontradas pelos muitos pesquisadores da Fundação que lhe consagra o nome ilustre. O escritor Humberto França entre eles.