Há 100 anos o Brasil dava adeus a um dos seus ilustres filhos: Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo. Morria o menino do Engenho Massangana, eternizava-se a personalidade que deixou como principal legado o fim do vergonhoso capítulo da história brasileira: a escravidão.
Doze anos antes, na sacada do Paço Imperial, no Rio de Janeiro, o prócere orador faria o mais ansiado discurso de sua vida: “Está abolida a escravidão. Não há mais escravos no Brasil”. Nabuco sabia que os mais de 300 anos de exploração e violência contra milhares de vidas deixariam sua herança, reconhecendo que a escravidão permaneceria por muito tempo como a característica nacional do Brasil.
Mais de um século depois, a população continua presa às correntes da ignorância: 10% de brasileiros analfabetos, 60% das crianças fora do Ensino Fundamental, 77% dos jovens entre 18 e 24 anos excluídos do Ensino Superior. Conterrâneo de Nabuco, Paulo Freire muito bem ilustrou nossa triste realidade educacional, defendendo, com sua Pedagogia da Libertação, que a escolarização das classes oprimidas poderia libertá-las através da tomada de consciência política.
Mas a quem interessa ter uma população crítica, exercendo plenamente sua cidadania? Certamente não a boa parcela da classe de políticos, que dependem desta cegueira intelectual para manter o status quo, garantindo suas posições de senhores de engenho a explorar as senzalas, seus currais eleitorais.
Apesar do irrefutável impacto da escravidão sobre a população negra e parda até os dias de hoje, em meus escritos venho sendo veementemente contra a adoção de cotas raciais nas universidades. Não é com um tratamento desigual e segregatório, ferindo a Constituição, que iremos quitar nossa divida histórica.
Temos que possibilitar condição de igualdade, oferecendo uma aparentemente utópica educação básica de qualidade. Mas é da utopia que nasce o sonho, motivador de ações. Joaquim Nabuco certamente foi um utópico que desafiou com suas idéias a elite conservadora da época. Precisamos de novos Nabucos para libertar nossa nação da ignorância e promover o pleno desenvolvimento de todos os setores.