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Para não esquecer Nabuco

Para não esquecer Nabuco
Editorial do Jornal do Commercio do dia 12.01.2010.

Por suas ideias e ações, pelas palavras ditas que ainda ecoam, ou pelas obras que com o tempo são mais admiradas, mulheres e homens notáveis são lembrados muitos anos depois de sua morte. Assim se inscrevem os nomes de personalidades que têm a memória viva na cultura de um povo, nomes que vêm a ser permanentemente cultivados na história de um país. Como Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, ilustre pernambucano, um dos maiores abolicionistas brasileiros, e cuja morte completa 100 anos no próximo dia 17.


Nascido no Engenho Massangana, no Cabo de Santo Agostinho, veio para o Recife, iniciou o curso de direito em São Paulo, concluído na Faculdade de Direito do Recife. Após um período na Europa, fixou residência, de volta ao Brasil, no Rio de Janeiro, onde atuou também como jornalista, escritor e diplomata. Foi colega de Euclides da Cunha e Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras, da qual foi um dos fundadores, e deputado por Pernambuco, encerrando seus dias como o primeiro embaixador do Brasil em Washington. O fim da escravidão dos negros no País foi a causa de sua vida, e os ideais de liberdade, democracia e educação formam seu grande legado, que o associam não apenas ao combate da segregação racial, mas o põem na linha de frente das lutas pela justiça social, pela ampliação da cidadania e pelo despertar da consciência crítica no século 20.

Para marcar o centenário de sua morte, celebramos 2010 como Ano Nacional Joaquim Nabuco, com diversos eventos, lançamentos de livros, e a colocação na internet de várias cartas inéditas. O engenho de sua infância, tombado patrimônio histórico como Parque da Abolição, está sendo restaurado pela Fundaj e deve se transformar em local de visitação turística e de pesquisa sobre a cultura da cana-de-açúcar e a obra de Nabuco –- uma excelente notícia, uma vez que, como anotou Daniel Piza em artigo publicado pelo JC em 28 de dezembro último, o abolicionista pernambucano “é um personagem pouco publicado e pouco estudado, em contraste com a sua importância”.

Defensor da monarquia federativa, sob o temor de que a República provocasse uma guerra civil, são contudo os valores liberais, herdados do pai, aqueles que melhor definem o filho de Nabuco de Araújo, senador e ministro da Justiça, objeto da obra Um estadista do Império. Defendia a eleição direta, o direito de voto para os analfabetos, uma maior representatividade no Parlamento – à época restrito aos católicos – e era contrário a pena de morte. Tendo como modelo os Estados Unidos, queria que a libertação dos escravos viesse acompanhada, em solo pátrio, de uma reforma agrária que representasse a democratização da terra. Promulgada a Lei Áurea, em 1888, devido ao peso de sua influência, reconhecida no exterior, recebeu a oferta, pelo Império, do título de Visconde – recusando-o peremptoriamente. Filho e neto de políticos, Joaquim Nabuco, assim como intelectual brilhante, deixou como marca uma atuação política exemplar, chegando a abandonar a carreira quando o regime imperial foi substituído pelo republicano.

Em tempos de raros exemplos e muitas manchas, quando a corrupção enche as páginas dos jornais e a tela da TV, é preciso não esquecer que há em nossa história figuras como a de Nabuco – e também, sem desperdício de ufanismo, que a tradição representativa pernambucana vem de longe, com líderes que saem daqui para ganhar destaque na cena nacional. Embora tenha afirmado ser mais “um observador do século do que do País”, o autor de Minha formação encarnou com perfeição a necessária mistura entre inteligência e ação, entre princípios e atitudes concretas que os demonstram. “Cada um de nós é só o raio estético que há no interior do seu pensamento, e, enquanto não se conhece a natureza desse raio, não se tem do que o homem realmente é” – escreveu. A natureza do pensamento e o seu legado na vida nacional continuam fazendo de Joaquim Nabuco, um século após o seu desaparecimento, a personalidade ímpar, repleta de lições, digna de nossa lembrança.

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