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A importância do diploma de Jornalismo

A importância do diploma de Jornalismo
A Nabuco inicia uma série de entrevistas sobre a importância do diploma para o exercício do jornalismo. Na estreia, confira a opinião da editora de Economia da Folha de Pernambuco, Lorena Ferrário.
Por: Talita Vasques (02/07/09)
Para discutir a importância do diploma para o exercício do Jornalismo, a equipe de conteúdo do site da Faculdade Joaquim Nabuco foi ouvir a opinião de profissionais do mercado e inicia uma série de entrevistas sobre o assunto. Na estreia, a editora do caderno de Economia da Folha de Pernambuco, Lorena Ferrário, defende que o Jornalismo não pode ser exercido sem regulamentação e fala sobre importância da formação acadêmica especifica para o exercício do jornalismo sério, ético, que forneça informações de qualidade, com equilíbrio e responsabilidade. Lorena se formou em jornalismo em 1999, fez pós-graduação em Propaganda e Marketing, trabalhou como assessora de Imprensa, atuou como repórter nos três principais veículos de comunicação impressa de Pernambuco, até assumir a atual função de editora. Cursa também o nono período de Direito na Maurício de Nassau.

IMPRENSA NABUCOSobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), com relação a não obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão de jornalista, qual a sua opinião?

LORENA FERRÁRIO - “A falta do diploma de jornalista não gera risco de dano à sociedade como é o caso da medicina, da engenharia e da advocacia", disse o ministro Gilmar Mendes. Passado o momento de euforia e indignação após escutar as palavras do presidente do STF em seu exercício de liberdade de expressão em cadeia nacional, continuo acreditando que o jornalismo não pode ser exercido sem uma regulamentação. Se, infelizmente, o nosso diploma foi tirado da maneira como foi, sem nenhum debate mais amplo com a sociedade ou com órgãos competentes para uma discussão mais séria, e apenas atendendo à solicitação de representantes de algumas empresas, agora temos que partir para resolver o que fazer com a lacuna que passa a existir. Além dos sem diploma, também estamos sem lei de imprensa. O que devemos colocar no centro da discussão é que o foco de uma faculdade de jornalismo não é ensinar alguém a escrever bem. Isso muita gente faz, independente de ser ou não jornalista. O papel de uma faculdade de jornalismo é, principalmente, nos deixar conscientes do que acontece nos casos de não nos pautarmos num jornalismo sério, exercido com ética, na busca por informações de qualidade, com equilíbrio e responsabilidade. Aliadas às preparações técnicas que também recebemos no período de formação, todas essas qualificações devem caminhar juntas e são essenciais para o exercício do jornalismo. A formação acadêmica é fundamental. Devemos aprofundar a discussão sobre o que será de uma sociedade com um mercado de trabalho jornalístico tão aberto assim, sem exigir certas qualificações, teóricas e técnicas, para exercer a profissão. Gilmar Mendes, ao fazer comparações entre esta ou aquela profissão, exibiu desrespeito ao princípio constitucional da isonomia ao tentar estabelecer certa hierarquia entre as profissões. Nenhuma das profissões que ele citou, em seu discurso desmedido, é mais ou menos importante que as outras. Cada qual ocupa seu lugar entre os papéis exercidos no mercado de trabalho, todas elas – direta ou indiretamente – afetam o cotidiano da sociedade, todas elas cometem erros e acertos. O que seria de sociedade sem exigir qualquer pré-requisito de formação superior de advogados, médicos e engenheiros, por exemplo? Precisamos, sim, de um projeto de lei que tramite no Legislativo brasileiro para regulamentar o nosso jornalismo. Alguém aqui esqueceu o que diz nossa Constituição, em seu art. 5º, XIII, determinando que "é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer"?

NABUCOO que mudou em sua carreira profissional, com a obtenção do diploma como jornalista?

LORENA - Escutei os argumentos do ministro Gilmar Mendes diante dos meus dez anos de formação profissional em jornalismo, todos eles sempre exercidos com ética e com cuidado em relação às informações obtidas. Sempre fui consciente do papel que eu exerço para levar informação de qualidade à sociedade. Os quatro anos de faculdade em jornalismo fizeram de mim uma profissional preocupada com o valor das informações que transmito e com o rigor técnico exigido, para proporcionar à sociedade o acesso à informação livre e de qualidade. E foi graças à formação superior em curso específico que me possibilitou entrar no mercado de trabalho e, dentro dele, crescer como profissional e ser humano. As analogias utilizadas pelo presidente do STF, infelizmente, tentaram diminuir nossos méritos como jornalista, a qualidade e a importância de nossa profissão para a sociedade. Lá do alto do STF, creio não ser possível enxergar bem a realidade, pois o pedestal é alto demais, longe o suficiente para perder o contato com o mundo real. Mas vale ressaltar que pelo menos dois ministros ainda conseguem manter os pés firmes no chão: Joaquim Barbosa (que não estava presente na reunião que rejeitou o diploma de jornalismo) e Marco Aurélio Mello (que votou abertamente contra tal rejeição).

NABUCO Na sua opinião, haverá mudança no comportamento do mercado? Você acredita que as empresas continuarão a exigir o diploma no momento da contratação?

LORENA - Precisamos agora lutar por uma legislação específica para a profissão. A discussão não acaba aqui. O Congresso Nacional precisa se posicionar. No mundo inteiro, há países que exigem diploma, outros não. A maioria, no entanto, faz exigências prévias para o exercício da profissão, cada um conforme seus padrões culturais e sociais. De uma maneira bem generalizada, num mundo cada vez mais competitivo e com uma crescente taxa de desemprego, um diploma na mão pode melhorar as chances de conseguir um emprego ou então de melhorar o salário. Se as empresas que lidam com jornalismo possuem outras preocupações além da qualidade do produto apresentado – como lucro e a disputa por uma maior fatia do mercado, algo inerente do mundo capitalista –, o melhor a fazer ainda é contratar jornalistas diplomados, seja para oferecer um produto melhor, seja para afastar erros e, conseqüentemente, ter mais garantias de exercer um trabalho pautado na ética.

NABUCO – Para você, essa decisão trará mudanças para a vida acadêmica e profissional de estudantes e recém-formados em jornalismo?

LORENA -  Seja por todas as gerações de jornalistas que trouxeram informação livre e de qualidade à população, seja pelos milhares de estudantes de jornalismo em todo Brasil, devemos continuar preservando o exercício da profissão com formação qualificada. Apenas assim é que poderemos reverter o quadro agora instaurado. Nada de extinguir o ensino do jornalismo. Agora, mais do que em qualquer outra época, devemos salientar a importância do papel das faculdades na formação de profissionais éticos e conscientes sobre sua profissão. A educação superior no País deve ser cada vez melhor exercida, fazendo valer a importância dada aos profissionais que saem das faculdades. No caso do jornalismo, o diploma atesta qualidade e técnica para informar. Colaboradores intelectuais não jornalistas devem continuar existindo, o que não tira a necessidade de profissionais formados em jornalismo. Em nome da democracia, da liberdade de imprensa e de uma eficiente e qualificada formação profissional, nossa missão de desenvolver um jornalismo sério continua.

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